Thunderbolts* e a promessa quebrada: como os Novos Vingadores (ainda) não se conectam ao Quarteto Fantástico
postado por: Antonio José | em 30 agosto 2025
Uma cena que empolgou, outra que desconcertou
Prometeram um encontro, mas ele não aconteceu do jeito que muita gente esperava. A cena pós-créditos de Thunderbolts* parecia abrir a porta para a chegada do Quarteto Fantástico à realidade principal do MCU. A imagem do Excelsior, a nave da equipe, atravessando o espaço e surgindo diante de heróis que a produção chama de “Novos Vingadores”, acendeu o imaginário dos fãs: pronto, o time de Reed Richards desembarcou no tabuleiro central. Só que, quando The Fantastic Four: First Steps chegou aos cinemas, o enredo seguiu outra rota.
No longa dirigido por Matt Shakman, a história acontece em Earth-828, um universo alternativo com regras e ameaças próprias. O grupo enfrenta Galactus, resolve a crise cósmica e volta para a rotina — ainda em sua dimensão. E o pós-créditos do próprio Quarteto, filmado sob a batuta dos irmãos Russo, salta alguns anos no futuro e mostra o Doutor Destino segurando o pequeno Franklin Richards. Ou seja: nada de desembarque imediato no MCU “principal”.
O resultado foi um curto-circuito na conversa online. A pergunta apareceu em massa: se Thunderbolts* mostrou a nave do Quarteto cruzando a fronteira entre dimensões, por que o filme do Quarteto não reconhece esse evento? A resposta está menos nas telas e mais no calendário de produção.
Resumindo o que cada obra entrega:
- Thunderbolts*: pós-créditos com os “Novos Vingadores” investigando anomalias espaciais; o Excelsior irrompe no quadro, sugerindo que a equipe do Quarteto está chegando.
- The Fantastic Four: First Steps: trama em Earth-828; Galactus como ameaça; time vence e permanece no próprio universo; pós-créditos dirigido pelos Russo Brothers com Destino e um Franklin bebê, ambientado anos depois.
É uma costura marcada a caneta em duas mãos diferentes — e, por enquanto, as linhas não se sobrepuseram na mesma página.

Nos bastidores, um revezamento real: roteiros fechados, tags tardias e a mão dos Russo
Matt Shakman contou em entrevistas que não sabia da cena de Thunderbolts* enquanto escrevia e filmava First Steps. Isso é mais comum do que parece no modelo Marvel. Funciona como um revezamento: um diretor conduz seu trecho, entrega o bastão, e outro cria a próxima etapa — às vezes, já com o set do primeiro desmontado e o roteiro fechado. As cenas pós-créditos, essas pequenas “dobradiças” entre filmes, costumam nascer depois, em paralelo a pós-produção, testes de audiência e ajustes de calendário.
É aí que as agendas se desencontram. Thunderbolts* ganhou sua tag quando First Steps já estava praticamente finalizado. Ao mesmo tempo, o próprio Quarteto teve seu pós-créditos filmado pelos Russo Brothers, que herdaram a tocha para as próximas conexões: os dois vão dirigir os novos filmes dos Vingadores, com Doomsday no horizonte. Na prática, cada peça cumpriu sua função: apontar direção, sem travar o próximo cineasta a um caminho único.
Por que a Marvel faz isso? Porque as “tags” são um espaço barato, rápido e flexível de testar conexões e aquecer o público. Podem ser gravadas em poucos dias, com equipe reduzida, e substituídas até perto da estreia. É um elástico criativo. O lado B desse método é a fricção: quando um filme sugere um passo e o seguinte ainda não pode confirmá-lo — por segredo, agenda ou simplesmente porque a história pedida é outra.
No caso do Quarteto, a história pedida era apresentar Earth-828, estabelecer dinâmica de time e confrontar um peso-pesado como Galactus. Forçar um deslocamento imediato para a realidade principal engoliria esse arco. Shakman entregou um “capítulo fechado”: ameaça, resposta, consequências locais. A ponte para fora de 828 ficou para depois — e esse “depois” foi sinalizado pelos Russo com a presença do Doutor Destino e de Franklin Richards, que historicamente mexem com as placas tectônicas da continuidade.
Vale olhar com calma para os elementos envolvidos:
- Earth-828: mais uma peça do multiverso Marvel em tela, com identidade própria. O MCU já flertou com universos alternativos antes, e o número ajuda fãs a mapear eventos sem misturar linhas do tempo.
- Galactus: ameaça cósmica que legitima o Quarteto como primeira resposta em seu próprio território. Derrotá-lo em casa sustenta a autoridade do grupo quando, e se, eles cruzarem de vez para a realidade central.
- Doutor Destino: a carta curinga. A cena com Franklin bebê, anos adiante, sugere um arco de longo prazo que pode pipocar não só em filmes do Quarteto, mas no eixo Vingadores.
E os “Novos Vingadores”? Thunderbolts* usa o termo para marcar um rearranjo. O MCU vive de ciclos. Quando um conjunto de heróis sai de cena ou muda de prioridade, outro toma a frente. A cena com a equipe investigando anomalias serve como assinatura desse novo momento. Não é preciso saber a escalação completa para entender o recado: alguém está de olho no céu e no tecido do multiverso.
Se você ficou com a sensação de “prometeram e não entregaram”, há um motivo mais técnico do que narrativo. As linhas de produção raramente correm lado a lado. Um filme trava roteiro, fecha orçamento, entra em filmagem. O outro, ainda em desenvolvimento, testa materiais, redefine vilões, troca cenas. Quando a engrenagem precisa sincronizar três, quatro projetos em diferentes estágios, a coordenação vira xadrez de 4D — e a comunicação pública precisa proteger segredos de marketing. Nem tudo pode ser revelado antes da hora.
O que a cena de Thunderbolts* garante então? Garante intenção. Existe um plano para cruzar os caminhos. O “como” e o “quando” ficam em aberto de propósito. O mais provável é que o gatilho surja onde tudo converge: Avengers: Doomsday, marcado para 18 de dezembro de 2026. É ali que as tramas soltas costumam ganhar nó. Com os Russo no comando, a presença de Destino e Franklin em First Steps fica com cara de semente consciente.
E como essa travessia pode acontecer dentro das regras já apresentadas? Há alguns mecanismos possíveis, todos coerentes com o que o MCU vem usando:
- Incursão: colisão entre realidades, conceito já sugerido em histórias recentes. Um evento desses pode forçar 828 a tocar a linha principal.
- Tecnologia Reed Richards: o Quarteto tem histórico de furar o tecido do espaço-tempo por ciência, não magia. Um “erro certo” pode abrir portal controlado.
- Plano de Destino: se alguém tem motivação e meios para construir uma ponte entre mundos para fins próprios, é Victor von Doom.
- Franklin Richards: mesmo bebê, o nome carrega tradição de poderes que reescrevem realidade nos quadrinhos. O cinema pode adaptar isso quando convier.
Note que nada disso é confirmação. É um mapa de possibilidades com base no que os filmes colocaram na mesa. O que já está cravado: o Quarteto vive em 828 ao fim de First Steps; Thunderbolts* mostra uma brecha; o pós-créditos do Quarteto aponta para Destino e Franklin como motores do futuro; a conclusão desse novelo promete cair em Doomsday.
O modelo Marvel insiste em equilibrar duas necessidades. De um lado, dar a cada filme começo, meio e fim que se sustentem sozinhos — como First Steps fez, ao fechar o arco de Galactus no próprio quintal. De outro, alimentar uma sensação de continuidade que mantém o público investido — como a cena de Thunderbolts* fez, ao mostrar a Excelsior tocando a realidade principal. Quando as duas coisas se chocam, a frustração aparece. Mas é um atrito esperado em franquias longas. A diferença aqui é que o estúdio expôs esse atrito de forma mais visível do que o usual.
Há também um ponto de timing comercial. Adiar o “grande encontro” preserva valor para o filme que realmente monetiza esse encontro. Em vez de espalhar várias micro-aparições, a estratégia concentra o choque de mundos em um evento maior — no caso, o próximo Vingadores. Isso organiza marketing, simplifica a vida de efeitos visuais e ajuda a distribuir responsabilidades de roteiro. Shakman contou sua história sem travas extras. Os Russo montam a pontuação final quando a orquestra toda estiver no palco.
Enquanto isso, o que dá para observar sem spoilers futuros? Trailers e materiais de bastidores costumam entregar linguagem visual. Se a Marvel quiser acostumar os olhos com a ideia de portais específicos, dispositivos ou padrões de energia associados ao Excelsior, isso vai pipocar em teasers. Figurinos e props reaproveitados entre produções também contam história: se um detector de anomalias aparecer igual em dois filmes, é porque a peça é valiosa para a transição.
Outro termômetro é o foco em personagens-pivô. Destino com Franklin no colo não é só um aceno fofo; é um aviso sobre poder e herança. Se próximos materiais destacarem pesquisas de Reed sobre estabilidade dimensional, ou pistas sobre a geopolítica de Latveria, o público pode ligar os pontos sem que ninguém diga a palavra “crossover”. A narrativa moderna do MCU se apoia em microdetalhes que ganham sentido meses depois.
Para quem acompanha de perto a logística, há mais uma camada: a janela de pós-produção. Se Doomsday estreia em 18 de dezembro de 2026, a montagem final precisa estar travada algumas semanas antes. Isso determina o último ponto em que uma cena extra pode ser filmada para costurar fios soltos. Até lá, Thunderbolts* e First Steps funcionam como marcadores de posição. Um aponta a direção, o outro apresenta as peças e um antagonista que sabe brincar de xadrez.
Na prática, os recados estão claros, ainda que a mensagem completa não esteja. A nave apareceu onde precisava para sinalizar um caminho. O Quarteto terminou onde precisava para continuar sendo protagonista de sua própria história. Destino entrou em cena, literalmente com o futuro nos braços. E os “Novos Vingadores” já olham para o espaço como quem sabe que algo vem de lá. Quando os filmes finalmente juntarem esses vetores, a sensação vai ser de que as pistas sempre estiveram no quadro — só faltava a linha que liga cada ponto.